Esse é só mais um "não-argumento", pois nada nos diz a respeito da existência de deuses. É apenas uma consideração calculista de como agir com relação ao ateísmo, considerando custos e benefícios. Ainda que fosse verdade que é vantajoso acreditar em deuses (e não é), os ateus estão em busca imparcial da verdade, e não de mentiras com grandes potenciais de ganho.
Mas analisemos o caso mesmo assim: será o teísmo realmente mais vantajoso do que o ateísmo? Essa proposta se chama aposta de Pascal, e está cheia de falhas. Em primeiro lugar, Pascal desconhecia ou preferia ignorar a existência de muitos outros deuses além da divindade específica do cristianismo. Como a aposta não indica em qual deus crer, o crente ainda tem uma escolha muito problemática. Se ele escolher crer no deus X para evitar o inferno I, ambos inexistentes, pode ser que ele acabe indo para o inferno I' do deus X', esses bem reais. Ou seja: a aposta pode sair pela culatra porque o indivíduo acreditou no inferno errado, motivo pelo qual esse problema é conhecido por "evitar o inferno errado".
Além disso, não é verdadeira a idéia de que nada se perde acreditando em um deus que não existe. As pessoas dedicam enormes quantidades de tempo, dinheiro e energia em atividades ligadas a essa crença, isso para não falar nas pessoas que morrem ao rejeitar a medicina em favor de curas milagrosas, nas guerras religiosas que sempre assolaram a humanidade, nas Cruzadas, a Inquisição, perseguições contra religiosos e ateus por motivos religiosos, o sofrimento dos indivíduos por desobedecer entidades que não existem, a discriminação contra mulheres e homossexuais... a lista é longa. E ainda que nada disso existisse, se é verdade que para o religioso nada se perde acreditando em mentiras, então quem tem sérias explicações a dar é ele, e não o ateu.
Caso o deus em questão seja onisciente, temos mais um problema pois ele também teria que ser ingênuo ou burro o suficiente para aceitar como válida uma crença formada a partir de um cálculo de conveniência. E mais: para a aposta funcionar, seria necessário que conseguíssemos acreditar naquilo em que não acreditamos, por um puro ato de vontade. Você seria capaz de acreditar em papai Noel se isso supostamente significasse que você vai ganhar um presente?
Os problemas não cessam aí, pois o argumento assume que só existem deuses do tipo que recompensa a crença e punem a descrença. Pode muito bem ser que existam deuses que valorizem a intelectualidade e a busca honesta da verdade, e que punam a fé, e recompensem a busca honesta pela verdade. Nesse cenário, a melhor aposta é mesmo descrer.
Por fim, caso existisse mesmo um deus que punisse seres humanos eternamente por "crimes de opinião", independentemente de quão boas e justas tenham sido suas vidas, então esse não seria um deus digno de ser adorado, concordam?
E para terminar vai uma frase de um grande humorista e critico norte americano George Carlin:
“A religião convenceu mesmo as pessoas de que existe um homem invisível – que mora no céu – que observa tudo o que você faz, a cada minuto de cada dia. E o homem invisível tem uma lista especial com dez coisas que ele não quer que você faça. E, se você fizer alguma dessas dez coisas, ele tem um lugar especial, cheio de fogo e fumaça, e de tortura e angustia, para onde vai mandá-lo, para que você sofra e queime e sufoque e grite e chore para todo o sempre, até o fim dos tempos... Mas Ele ama você!”
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